Hoje comecei o dia diferente. Ainda cedo, em meio à rotina intensa que costuma me acompanhar, parei. Participei de um grupo de oração. Um momento simples, mas que trouxe silêncio para dentro de mim — algo raro nos dias corridos.
Depois, segui o fluxo da vida: treino, visitas na UTI neonatal do SUS, uma visita domiciliar para atender uma criança com laringite. Cada cenário com sua urgência, sua demanda, sua forma de cuidado.
Mas nada me prepararia para o que viria no plantão.
Um bebê nasceu com 19 semanas, pesando 360 gramas. Há momentos na medicina em que não estamos ali para curar. Estamos ali para cuidar — de outra forma. Para sustentar o insustentável. Para acolher aquilo que não pode ser mudado. E foi isso que aconteceu.
Diante daquela família, não existia protocolo que resolvesse, nem tecnologia que revertesse. Existia dor. Existia amor. Existia um limite muito claro entre a vida e o que ainda não pode permanecer nela. A mãe segurava um terço. E, naquele instante, tudo fez sentido.
A ciência me ensinou até onde podemos ir. Mas é na humanidade — e, muitas vezes, na fé — que encontramos como permanecer ali.
Segurei palavras com cuidado. Respeitei o silêncio. Permiti que aquele momento fosse deles, sem pressa, sem invasão, apenas presença.
Na Semana Santa, somos convidados a olhar para o mistério da dor, da entrega e da esperança.
Hoje, dentro de um hospital, esse mistério não era simbólico. Era real. E me lembrou que, na medicina, nem sempre salvamos vidas. Mas sempre — sempre — podemos cuidar de quem ama.
E talvez seja esse o verdadeiro sentido da Páscoa.
Acreditar que, mesmo diante da dor, algo permanece.
Que o amor não se perde.
Que o cuidado deixa marcas que vão além do tempo.
Que, mesmo quando não há cura, ainda há presença.
E onde há presença, há esperança.
Feliz Páscoa.

Dra. Eliana Maekawa
Pediatra e Neonatologista
Mãe do Matheus e da Ana Luiza
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