Por James Diver
“Eu não sou bom em Matemática”, “Nunca vou conseguir aprender isso” ou “Eu estudo e esqueço tudo” parecem, à primeira vista, apenas desabafos comuns da rotina escolar. Mas, quando repetidas ao longo da infância e adolescência, essas frases constroem crenças limitantes que moldam a forma como as pessoas enxergam a própria inteligência e capacidades. De acordo com estudo da Universidade de Stanford, falas negativas podem reduzir a disposição do cérebro em formação para persistir e aprender, fazendo com que crianças e adolescentes passem a enxergar dificuldades e erros como sinais de incapacidade, e não como parte natural do processo de aprendizagem. Quando elas acreditam que a inteligência é algo com o qual se nasce ou não, os alunos tendem a desistir com mais facilidade diante dos desafios, evitar situações em que possam errar e desenvolver quadros de ansiedade, realidade que já afeta 49% dos estudantes no Brasil, segundo o IBGE.
O problema é que a escola tradicional ainda trata essas frases como falta de esforço, preguiça ou desinteresse do aluno, quando, na verdade, elas revelam insegurança, medo do fracasso e uma relação fragilizada com o aprendizado. E isso não fica restrito à infância. Muitos adultos carregam marcas construídas dentro da sala de aula, tornando-se profissionais inseguros que evitam novos desafios porque cresceram ouvindo que não levavam jeito, associando o erro à humilhação, ou que acreditam não serem inteligentes o bastante para determinadas áreas da vida.
A escola não deve ensinar apenas disciplinas como Matemática, Ciências e Língua Portuguesa. Ela também tem a função de contribuir para o desenvolvimento emocional e social dos alunos, ajudando-os a lidar com as frustrações, construir autoconfiança e desenvolver a forma como se relacionam consigo mesmos e com o mundo ao redor. É justamente a partir dessa visão mais ampla do aprendizado que cresce, nos últimos anos, o debate sobre educação holística, abordagem que busca enxergar o estudante integralmente. Diferentemente do modelo tradicional, centrado exclusivamente na lógica de aprovação ou reprovação ao fim do ano letivo, essa perspectiva também considera o desenvolvimento humano, relacional e intelectual dos alunos, além da capacidade de construir autonomia, resiliência e relações saudáveis.
Metodologias inspiradas no conceito do Poder do Ainda, desenvolvido pela psicóloga Carol Dweck, vêm ganhando espaço em salas de aula em diversos países. A proposta parte de uma mudança simples de linguagem, substituir frases definitivas, como “eu não consigo”, por “eu ainda não consigo”. Embora pareça um detalhe, uma mera palavra, a mudança ajuda estudantes a compreenderem o aprendizado como um processo contínuo. Escolas que adotaram essa abordagem registraram crescimento de cerca de 40% na persistência dos alunos diante de dificuldades e 92% das crianças e jovens expostos à prática passaram a buscar desafios maiores. Isso significa substituir a ansiedade pela reprovação por resiliência da tentativa.
A educação holística e abordagens como o Poder do Ainda propõem uma mudança profunda no papel da escola e na forma como o aluno enxerga a si mesmo. Ao trocar a ideia de incapacidade pela compreensão de que habilidades podem ser desenvolvidas ao longo da vida, a escola deixa de atuar como espaço de avaliação de desempenho para assumir a responsabilidade de formar indivíduos mais confiantes e preparados para lidar com desafios, sem medo de pensar, tentar, errar e continuar aprendendo.

James Diver é professor há mais de 25 anos e diretor da Escola Eleva São Paulo
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