Ontem à noite, estive em uma escola — não como mãe, mas como médica convidada para uma roda de conversa com pais. A proposta era leve: falar sobre autocuidado, ritmo e a pressão silenciosa que carregamos sem perceber. Mas o que aconteceu ali me marcou.
Quando perguntei quantos sentiam que precisavam mudar algo na própria rotina, quase todas as mãos se levantaram. Quando perguntei quantos já tinham tentado — e desistido — as mesmas mãos permaneceram no ar.
Foi então que compartilhei algo que aprendi na prática: mudanças bruscas raramente funcionam. É como tentar pregar um prego na parede com força. Pode até entrar. Mas é mais provável machucar a mão — ou entortar o prego.
O que realmente sustenta a mudança é o ritmo. Constante, possível. Às vezes, mais do que força, precisamos de direção. Como quem parafusa: devagar, com intenção, no ângulo certo.
Nossas rotinas pedem isso. O corpo precisa de ritmo. A mente também.
Falamos sobre reconhecer sentimentos antes de reagir. Sobre escolher respirar — não como um clichê, mas como uma decisão consciente nos momentos de sobrecarga.
E compartilhei uma técnica simples, que uso com crianças e que funciona igualmente para adultos:
cheira a florzinha, assopra a velinha. Inspirar pelo nariz, devagar, como se estivesse sentindo o perfume de uma flor. Expirar pela boca, suavemente, como quem apaga uma vela sem derrubar o bolo.
É simples. E é exatamente por isso que funciona.
Quando a criança vê o adulto fazendo junto, ela aprende algo essencial: que emoções passam. Que existe caminho. Que é possível se reorganizar por dentro.
No final, uma mãe me disse: “Eu achei que era sobre os filhos… mas era sobre mim também.”
Era sobre os dois. Sempre é.
Porque cuidar de uma criança começa — inevitavelmente — pelo cuidado com quem cuida.
Não na perfeição.
No ritmo.

Dra. Eliana Maekawa
Pediatra e Neonatologista
Mãe do Matheus e da Ana Luiza
SUGESTÕES DE PAUTA: [email protected]

