Uma colheita obrigatória – só há liberdade com responsabilidade

Por André Naves

A voz do Povo é a voz de D´us! A sabedoria popular e ancestral se impõe com a força de uma lei natural: o plantio é opcional, mas a colheita é compulsória. Esta máxima, que rege os ciclos da terra, deveria também governar as nossas vidas em sociedade. Contudo, vivemos uma era que parece querer negar essa verdade, uma era que anseia pela liberdade do plantio sem o ônus da colheita.

Em nosso tecido social, essa negação se manifesta de formas diversas e igualmente nocivas. Ela está presente quando a justiça falha em reconhecer que solapar o direito de um trabalhador ao seu salário é uma violência tão grave quanto permitir que um criminoso escape das consequências de seus atos. Ambas as ações minam a confiança, erodem a dignidade e semeiam a desordem. A balança da justiça perde seu propósito se pende para um lado, ignorando o peso do outro.

Atravessamos uma perigosa crise de responsabilidade, onde a noção de consequência parece ter se diluído. Desde o furto de um celular na esquina até a articulação de um atentado contra o Estado de Direito, emerge uma perversa tentativa de desvincular o ato de seu resultado. Essa dissociação é o solo fértil para a impunidade, que encoraja a escalada da transgressão. Quando muitos desvios são tolerados, vários crimes se tornam pensáveis.

Muitos confundem liberdade com o direito irrestrito de “fazer o que se quer”. É um engano infantil. A verdadeira liberdade, a cidadania madura, não reside na ausência de limites, mas na dignidade de ser responsável pelas próprias escolhas. Quem exige a liberdade de expressão para proferir o que bem entende, precisa ter a coragem de ouvir o que não quer e arcar com o impacto de suas palavras. Querer o bônus da liberdade sem o ônus da responsabilidade é reivindicar uma licença para a tirania pessoal.

Superar essa crise não é uma tarefa para um salvador, mas um chamado à consciência de cada um. É um convite para pensarmos criticamente, para resgatarmos a alteridade e entendermos que nossas ações, como pedras lançadas em um lago, criam ondas que alcançam margens distantes. A Esperança não está em aguardar um futuro utópico, mas na decisão presente de sermos melhores semeadores.

A sociedade mais Justa, Inclusiva e Democrática que tanto esperançamos florescerá apenas no campo da responsabilidade mútua. É ali, nesse solo fértil, que a beleza de uma verdadeira comunidade se revela: quando cada cidadão entende que a liberdade só é plena ao caminhar de mãos dadas com a coragem de assumir a própria colheita.

André Naves é Defensor Público Federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social.


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