Existe uma ideia silenciosa que acompanha muitas mulheres depois da maternidade: a de que cuidar de si mesma pode esperar. Quando engravidei do meu primeiro filho, Matheus, recebi o diagnóstico de pré-diabetes gestacional. Fiz dieta com rigor, segui todas as orientações e cuidei da minha saúde com disciplina. Havia um propósito muito claro: proteger meu bebê.
Ele nasceu e, com ele, nasceu também uma nova versão de mim. A maternidade me preencheu de uma forma difícil de descrever. Mas, junto com o amor absoluto, veio a rotina intensa. Plantões, noites mal dormidas, amamentação, agenda cheia. O autocuidado começou a escorregar para o fim da lista. Eu ainda tentei encaixar pequenas pausas, como yoga e dança materna. Mas, quando voltei ao trabalho, quatro meses depois, a sensação era de que só havia espaço para dois papéis: mãe ou pediatra. A mulher que eu era antes — aventureira, esportista, sonhadora — ficou em segundo plano.
Anos depois, com a chegada da minha filha Ana Luiza, minha vida ficou ainda mais potente e colorida. Mas, em meio à dedicação aos filhos, à profissão e à família, percebi algo que me inquietou profundamente: eu não ia ao médico desde 2020. O último profissional que havia me examinado era o obstetra do parto da minha filha. Eu cuidava de todos. Menos de mim.
Essa constatação me fez refletir sobre algo que observo diariamente: mulheres que sustentam famílias, carreiras e rotinas inteiras, mas adiam indefinidamente o próprio cuidado. Como se saúde, descanso e tempo pessoal fossem privilégios — quando, na verdade, são necessidades básicas.
Em 2025, me aproximando dos 40 anos, tomei uma decisão consciente. Voltar a me enxergar como mulher, não apenas como mãe ou profissional. Retomei a atividade física às 6h15 da manhã com o nosso “Bonde da Madrugada”. Voltei ao médico. Reorganizei minha alimentação. Perdi peso, mas, mais importante do que isso, recuperei energia, presença e disposição.
Compartilho essa história não por vaidade, mas por convicção. Autocuidado não é egoísmo. Não é luxo. É responsabilidade. É permanência.
Precisei me cuidar para cuidar melhor de todos. Esse é, talvez, um dos maiores gestos de amor que podemos oferecer.
Se você anda se deixando para depois, talvez hoje seja um bom dia para voltar a se colocar, ainda que aos poucos, na própria agenda.

Dra. Eliana Maekawa
Pediatra e Neonatologista
Mãe do Matheus e da Ana Luiza
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