Por Manoela Klippel
A disputa entre minimalismo e maximalismo revela um problema maior do que a preferência por paredes brancas ou ambientes carregados de objetos. Ela mostra como a decoração passou a vender estilos de vida em forma de imagem. Durante anos, o minimalismo prometeu uma casa mais leve, organizada e sofisticada; agora, o maximalismo reage com cores, estampas, obras de arte e excesso de objetos, numa tentativa de devolver personalidade aos interiores. O movimento faz sentido, mas há uma contradição quando a busca por autenticidade também passa a obedecer a uma estética pronta. A casa que parece ter personalidade porque reproduz perfeitamente a fotografia de uma tendência pode ser tão impessoal quanto aquela que retirou tudo das prateleiras para alcançar o ambiente neutro das revistas. O verdadeiro contraponto ao minimalismo não é o maximalismo. É uma casa que não precisa provar nada para quem olha de fora.
Essa discussão ganha importância porque o modo de morar mudou mais rapidamente do que muitos projetos residenciais. Segundo o Censo 2022, do IBGE, 18,94% dos domicílios brasileiros já tinham apenas um morador, enquanto a média de pessoas por domicílio caiu para 2,79. O mesmo levantamento mostra que a parcela da população vivendo em apartamentos chegou a 12,5%, contra 8,5% em 2010. Não existe, portanto, uma configuração única de família para a qual possamos projetar uma casa definitiva. Há quem trabalhe em casa, quem more sozinho, quem receba filhos em períodos alternados, quem divida o imóvel com animais, quem precise transformar um quarto em escritório e quem descubra, depois da obra, que a função mais importante de uma sala é simplesmente receber amigos. Projetar a partir de uma fotografia idealizada é ignorar justamente aquilo que torna uma residência diferente de qualquer outro projeto. Ela precisa acomodar mudanças que ainda não conhecemos.
É nesse ponto que a obsessão pela casa pronta começa a ficar cara, não apenas financeiramente, mas também em termos de liberdade. Uma estante concebida para ser preenchida imediatamente pode produzir uma bela fotografia, mas uma estante que comporte os livros que ainda serão comprados tem outra inteligência. Uma parede não precisa nascer com uma composição definitiva de quadros. Um móvel pode mudar de função. Um canto pode permanecer vazio até que alguma experiência dê a ele um sentido. Isso não significa defender ambientes inacabados ou abrir mão de planejamento. Significa reconhecer que o planejamento residencial deveria prever a transformação. O próprio Estado já começa a tratar a melhoria habitacional por uma perspectiva mais ampla do que a estética. O Ministério das Cidades define, no Reforma Casa Brasil, que intervenções em moradias devem enfrentar problemas de segurança, salubridade, habitabilidade, acessibilidade, sustentabilidade e conforto. A pergunta relevante, portanto, não é se a casa está bonita segundo a tendência vigente, mas se continuará funcionando quando a vida mudar.
Há quem possa argumentar que essa preocupação exagera a influência das redes sociais e das referências de decoração. Afinal, buscar inspiração sempre fez parte do processo de projetar e reformar. Concordo, mas existe uma diferença importante entre inspiração e prescrição. Quando o repertório visual passa a determinar o que é considerado uma casa desejável, começamos a decorar para produzir reconhecimento em vez de construir identificação. O problema se torna ainda mais evidente quando a tecnologia permite fabricar imagens de ambientes aparentemente cheios de história sem que nenhuma história tenha sido vivida ali. Uma inteligência artificial pode reunir madeira envelhecida, livros, quadros, cerâmicas, tecidos e objetos aparentemente colecionados ao longo de décadas em uma única imagem. Pode reproduzir a aparência da memória sem possuir memória alguma. Se a tecnologia já consegue fabricar a aparência de uma casa vivida, talvez a arquitetura precise fazer o movimento contrário e recuperar aquilo que não pode ser gerado por prompt: tempo, acaso e vínculo.
Os dados sobre melhoria habitacional ajudam a mostrar por que essa distinção importa. Pesquisa de Percepção de Mudança 2025, realizada pela Habitat para a Humanidade Brasil com 430 famílias e 2.067 intervenções nos imóveis, registrou que 98% das famílias perceberam melhorias nas condições da moradia e 96% relataram aumento de conforto e salubridade. O resultado desloca a discussão para um terreno mais concreto. Uma reforma pode mudar a vida de uma família sem produzir nenhum ambiente digno de capa de revista. Pode corrigir uma infiltração, melhorar a circulação, ampliar a acessibilidade, resolver um problema de ventilação ou simplesmente fazer com que um espaço passe a cumprir melhor sua função. Isso também é projeto. Talvez seja até o que existe de mais importante nele. A estética ganha força quando nasce dessas necessidades, e não quando tenta escondê-las.
Por isso, não vejo sentido em escolher entre minimalismo e maximalismo como se estivéssemos decidindo qual será a próxima fórmula para morar bem. Ambos podem produzir casas extraordinárias e ambos podem produzir cenários vazios de significado. O que deveria permanecer é a possibilidade de a residência mudar sem perder sua identidade. Uma casa realmente bem projetada não precisa parecer completa no dia em que o arquiteto entrega as chaves. Ela pode deixar uma parede esperando pela fotografia de uma viagem que ainda não aconteceu, uma estante esperando pelos livros que ainda serão comprados e um espaço aberto para um objeto cuja importância ninguém conhece hoje. Tendências envelhecem. Pessoas mudam. Memórias chegam sem respeitar paleta, proporção ou composição. Se a arquitetura residencial pretende acompanhar a vida, talvez precise aceitar uma ideia pouco vendável, mas essencial: a melhor casa é aquela que ainda não terminou de ser feita.

Manoela Klippel é CEO e fundadora do resolva minha casa
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