Inclusão digital não é só acesso, e o Brasil precisa encarar isso agora

Por Sérgio Cerrada

Ao longo dos últimos anos, trabalhando diretamente com iniciativas de empregabilidade e inclusão produtiva, uma coisa tem ficado cada vez mais clara para mim: o Brasil ainda trata a inclusão digital de forma superficial.

A transformação digital avança rápido, redesenhando o mercado de trabalho e criando oportunidades. Mas, na mesma velocidade, ela também amplia desigualdades, especialmente para quem não teve acesso a formação adequada.

E aqui está o ponto central: não basta estar conectado.

Na prática, o que vemos todos os dias são pessoas com acesso à internet, mas sem as habilidades necessárias para transformar isso em oportunidade real. Falta formação, falta direcionamento e, principalmente, falta conexão com o mercado de trabalho. Isso cria uma nova camada de exclusão, mais invisível, mas igualmente limitante.

Insistir em políticas focadas apenas em conectividade é enxugar gelo. Inclusão digital de verdade exige uma jornada completa: começa no acesso, passa pela alfabetização digital, avança para a capacitação técnica e só se concretiza quando chega à empregabilidade. E é justamente nesse ponto que o papel do poder público se torna decisivo. Não apenas como provedor de infraestrutura, mas como indutor de políticas mais estruturadas, financiador de iniciativas e articulador de diferentes atores. Ao mesmo tempo, a experiência mostra que o governo, sozinho, não consegue dar conta da escala e da complexidade desse desafio.

Os melhores resultados que já acompanhei vieram de modelos colaborativos. Organizações da sociedade civil conseguem chegar onde muitas políticas públicas não chegam, com agilidade e proximidade com os territórios. O setor privado, por sua vez, traz tecnologia, inovação e, principalmente, a demanda real por talentos, algo fundamental para garantir que a formação esteja alinhada com o que o mercado precisa.

Quando esses três elementos se conectam — governo, sociedade civil e empresas — o impacto deixa de ser pontual e passa a ser estrutural. É assim que se constroem jornadas completas, que não param no curso, mas chegam ao emprego. E isso muda tudo. Porque, no fim, inclusão digital não é sobre tecnologia. É sobre oportunidade.

E é também sobre economia.

A formação de talentos em tecnologia é uma das formas mais concretas de enfrentar o desemprego estrutural, aumentar a produtividade e preparar o país para competir em um cenário global cada vez mais digital. Tratar essa agenda como algo secundário é um erro estratégico.

Claro que ainda existem entraves importantes. A fragmentação de iniciativas, a burocracia no acesso a recursos públicos e a dificuldade de escalar projetos limitam o impacto de ações que já provaram funcionar. Além disso, ainda avançamos pouco na mensuração consistente de resultados.

É por isso que iniciativas como a Escola da Nuvem mostram, na prática, como esse modelo pode funcionar de forma efetiva e escalável. Atuando na geração de empregos através da formação de talentos em tecnologia , a organização conecta capacitação técnica, desenvolvimento de habilidades comportamentais e aproximação direta com o mercado, especialmente para públicos com menor acesso à formação e ao mercado de trabalho. Trata-se de um exemplo concreto de como a integração entre sociedade civil, setor privado e poder público pode gerar resultados reais e mensuráveis. Mais do que uma solução isolada, a Escola da Nuvem se posiciona como uma parceira estratégica para governos que desejam avançar em políticas públicas de inclusão produtiva, oferecendo um modelo já validado, com potencial de expansão e impacto em escala.

Mas, olhando para o que já foi construído, fica evidente que o caminho existe. O Brasil tem instrumentos, tem organizações capacitadas e tem uma demanda urgente por inclusão produtiva. O que falta é coordenação, continuidade e prioridade.

A meu ver, inclusão digital precisa ser tratada como política de Estado. E a formação de talentos, como uma agenda central para o desenvolvimento do país. A pergunta que fica não é mais se devemos agir, mas como vamos fazer isso em escala.

Porque continuar tratando inclusão digital apenas como acesso é, na prática, aceitar que milhões de pessoas fiquem à margem das oportunidades que já estão sendo criadas. E esse é um custo que o Brasil não pode mais sustentar.

Sergio Ricardo Cerrada é especialista em desenvolvimento institucional, relações governamentais e planejamento estratégico


SUGESTÕES DE PAUTA: [email protected]

- Patrocinado -

Últimas

Equipamentos de saúde da Prefeitura oferecem testagem gratuita para ISTs

Cidadãos podem realizar testes convencionais e rápidos, além de...

7 erros de segurança que você pode estar cometendo agora

Golpes digitais já causaram prejuízo de R$ 100 bilhões...

Tradição na cozinha sustenta identidade, mas sem atualização, se transforma em limite

Por Vitor Macedo de Mello Toda cozinha carrega uma história....

Equipamentos de saúde da Prefeitura oferecem testagem gratuita para ISTs

Cidadãos podem realizar testes convencionais e rápidos, além de iniciar profilaxias de prevenção ao HIV e retirar preservativos Os munícipes de São Paulo podem realizar...

7 erros de segurança que você pode estar cometendo agora

Golpes digitais já causaram prejuízo de R$ 100 bilhões em 2025 Você usa o Pix todos os dias, manda mensagens pelo WhatsApp sem parar e...

Tradição na cozinha sustenta identidade, mas sem atualização, se transforma em limite

Por Vitor Macedo de Mello Toda cozinha carrega uma história. Eu vejo isso todos os dias. Está no tempero, nos processos, na forma como cada...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui