Eu chego ao litoral achando que vou descansar. E descanso, sim — mas não do jeito que eu planejo. Descanso quando a manhã começa sem pressa, quando a areia vira casa provisória, quando o tempo parece esticar. Até o momento em que o céu muda e lembra, com delicadeza nenhuma, que natureza não negocia.
Primeiro é o vento: aquele sopro mais frio que desalinha o cabelo e o pensamento. Depois, a nuvem escura ocupando o espaço com uma autoridade silenciosa. E então o trovão — um som que não pede licença, só acontece. Na praia, tudo fica exposto: corpo, pele, infância, distração. E é nessa hora que eu vejo como a alegria também pode ser um tipo de risco quando a gente se entrega sem atenção.
A minha cabeça tenta fazer o que sempre faz: administrar. “Deve passar rápido.” “Está longe.” “Só mais um mergulho.” Mas, com criança por perto, eu aprendi que a decisão certa precisa ser simples. Não é o momento de discutir com o céu, nem de provar coragem. Se ouviu trovão, acabou a conversa com o mar.
Eu junto as coisas sem transformar aquilo num susto. Falo com calma, como quem dá um combinado que protege: “Agora é hora de sair.” Procuro abrigo de verdade — um lugar fechado, seguro — e espero. E, enquanto espero, penso que talvez isso seja um dos trabalhos invisíveis da maternidade e da vida adulta: traduzir perigo sem traumatizar, colocar limite sem estragar a memória.
Porque memória boa não é só a do sol. É a de ter alguém inteiro ali. Alguém que viu a nuvem chegar e, sem alarde, cuidou. A tempestade passa — mas a sensação de proteção fica.

Dra. Eliana Maekawa
Pediatra e Neonatologista
Cuidando da infância com ciência, presença e acolhimento
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