Hoje, na UTI neonatal do SUS, vivi mais um daqueles dias que me lembram por que escolhi ser intensivista.
Cuidar de um bebê crítico exige precisão. Ajustamos medicações que sustentam o coração e o pulmão. Revisamos milimetricamente a oferta hídrica, a nutrição, os parâmetros do ventilador. Nada é por acaso. Tudo é estudado, calculado, baseado em ciência — e também em experiência. E, quando esse equilíbrio acontece com responsabilidade e coerência, o resultado chega. Muitas vezes, positivo.
Mas o mais marcante do meu dia não foi um ajuste técnico. Foi o encontro. Ao final da visita, durante o boletim médico, uma mãe se sentiu segura para me contar a sua história. Disse que já havia tido um bebê prematuro, nascido em 2016 — o mesmo ano em que meu filho nasceu.
Seguimos conversando… e então veio a surpresa: Foi no hospital onde eu trabalhava naquela época. Ela me olhou e perguntou: “Você lembra de mim?”
Naquele instante, o tempo pareceu se dobrar. Um bebê de 25 semanas, que ajudei a cuidar há quase 10 anos, hoje está saudável. E eu estava ali, novamente, diante daquela mãe — agora em outra história, outro momento, mas com o mesmo vínculo invisível que conecta quem cuida e quem é cuidado.
O universo, às vezes, nos responde em silêncio. Mas, quando responde, é com uma precisão que nenhuma ciência explica. Cuidar de um bebê prematuro pode não fazer sentido para todos. Às vezes, nem para alguns médicos. Mas quem vive isso de perto entende: Não é apenas sobre protocolos, ventiladores ou medicações.
É sobre sustentar a vida quando ela ainda é extremamente frágil.
É sobre responsabilidade — imensa.
E, ao mesmo tempo, sobre testemunhar algo que só pode ser descrito como milagre.
Entre a técnica e o afeto, entre o cálculo e a fé, a neonatologia acontece. E, em dias como hoje, eu tenho certeza: estou exatamente onde deveria estar.

Dra. Eliana Maekawa
Pediatra e Neonatologista
Mãe do Matheus e da Ana Luiza
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