Ela me ensinou o que é medicina — com as mãos e com o coração

No dia 30 de maio partiu a Angelita Habr-Gama. Aos 92 anos, deixou um legado que ultrapassa os livros, os centros cirúrgicos e as fronteiras do Brasil. Professora titular da Faculdade de Medicina da USP, criadora da Disciplina de Coloproctologia do Hospital das Clínicas e referência mundial no tratamento do câncer colorretal, ela foi uma das maiores médicas que nosso país já produziu.

Eu a conheci de uma forma muito diferente.

Eu era estudante do sexto ano de Medicina quando uma apendicite aparentemente simples se transformou em uma fístula entérica de alto débito. O diagnóstico demorou. O tratamento exigia jejum prolongado e nutrição parenteral. Enquanto meus colegas se preparavam para a reta final da graduação, eu estava internada, tentando lidar com o medo, a incerteza e a possibilidade de não me formar com a minha turma.

Foi então que Angelita assumiu meu caso.

Naquele momento, eu conhecia sua fama. Sabia que estava diante de uma das cirurgiãs mais respeitadas do mundo. Mas o que mais me marcou não foi seu currículo impressionante. Foi sua humanidade.

Ela não enxergava apenas exames, drenos ou complicações cirúrgicas. Enxergava uma jovem assustada, com sonhos interrompidos e muitas perguntas. Em cada visita, transmitia algo que vai além do conhecimento técnico: confiança. Não prometia o impossível, mas fazia com que eu acreditasse que havia um caminho.

Consegui me recuperar. Consegui me formar com a minha turma.

Anos depois, já como pediatra, neonatologista e mãe, percebo o tamanho da lição que recebi. A medicina exige conhecimento, atualização constante e decisões difíceis. Mas nunca pode perder aquilo que nos aproxima dos pacientes: a capacidade de enxergar a pessoa por trás da doença.

Todos os dias, na UTI neonatal, encontro famílias vivendo alguns dos momentos mais delicados de suas vidas. E frequentemente me lembro que um médico pode não ser capaz de retirar todo o sofrimento, mas sempre pode oferecer presença, acolhimento e honestidade.

A ciência salva vidas. A empatia dá sentido ao cuidado.

O Brasil perdeu uma gigante da medicina. Eu me despeço com gratidão da médica que ajudou a cuidar de mim e que, sem saber, também ajudou a formar a profissional que me tornei.

Porque algumas pessoas ensinam nas salas de aula. Outras ensinam pelo exemplo. Angelita Habr-Gama fez as duas coisas. E seu legado continuará vivo em cada médico que aprendeu que excelência e humanidade caminham juntas.

Dra. Eliana Maekawa

Pediatra e Neonatologista

Mãe do Matheus e da Ana Luiza


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