El Niño pode ser o mais forte desde 1950: cidades precisam planejar para um clima mais instável

Por Mariana Pontes

O Brasil entra em uma nova temporada de pressão climática diante de uma questão que ganha cada vez mais relevância para o planejamento urbano: incorporar às decisões sobre as cidades um cenário de maior variabilidade de chuva, temperatura e disponibilidade de água. As informações produzidas pelos órgãos de monitoramento climático e as ferramentas de análise de risco já permitem compreender melhor essas mudanças. Integrar esse conhecimento às escolhas sobre infraestrutura, ocupação do território e serviços urbanos pode aumentar a capacidade das cidades de se preparar para as próximas décadas. Em junho, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) confirmou o estabelecimento do El Niño e indicou que o fenômeno poderia persistir até o fim do verão de 2026/2027. Em agosto, o instituto divulgou que a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, sigla em inglês) passou a apontar probabilidade igual ou superior a 90% de um El Niño muito forte nos próximos trimestres, com possibilidade de ser o episódio mais intenso desde 1950. O dado deveria produzir uma mudança imediata na agenda das cidades. Se a meteorologia consegue antecipar um cenário de maior pressão sobre diferentes regiões, esse cenário reforça a necessidade de que decisões sobre drenagem, ocupação do solo, abastecimento e infraestrutura passem a considerar o risco climático como uma variável permanente do planejamento..

O problema se torna mais evidente quando se abandona a ideia de que El Niño significa simplesmente mais chuva ou mais seca. A previsão do INMET para julho a setembro de 2026 apontava chuva acima da média em áreas do Sul e abaixo da média no centro-norte do país, além de temperaturas acima da média no segundo semestre, condição capaz de favorecer ondas de calor e incêndios. Em agosto, o próprio instituto manteve a previsão de temperaturas acima da média em grande parte do território, com desvios de até 2 °C em áreas do Norte e Centro-Oeste, enquanto o regime de chuvas permanecia desigual entre as regiões. O que isso significa para uma cidade? Que não basta ter uma estrutura de drenagem maior ou um reservatório cheio. Uma administração pode enfrentar, em um mesmo ciclo climático, excesso de água em uma área, redução da disponibilidade hídrica em outra e aumento da demanda por energia e água provocado pelo calor. Planejar cada problema separadamente é uma forma de multiplicar a vulnerabilidade.

Os próprios dados municipais mostram que a infraestrutura existente não pode ser confundida com preparação. Segundo o IBGE, 5.348 dos 5.570 municípios brasileiros, ou 96%, declararam possuir algum dispositivo de drenagem e manejo de águas pluviais em 2023. O número parece suficiente até que se observa como essa infraestrutura é concebida. Apenas 24,5% dos municípios informaram adotar soluções baseadas na natureza como estratégia de drenagem, enquanto 57,5% disseram não utilizá-las. O principal obstáculo relatado para a adoção dessas soluções foi financeiro ou orçamentário, citado por 2.872 municípios. Os dados revelam, portanto, um desafio importante. O país já investe em drenagem, mas ainda encontra dificuldade para incorporar mecanismos que reduzam a velocidade do escoamento, ampliem a retenção de água e diminuam a pressão sobre sistemas convencionais. Quando uma cidade impermeabiliza seu território e depois amplia galerias para tentar conduzir volumes cada vez maiores de água, ela está tratando o sintoma como infraestrutura e deixando a causa intacta.

A adaptação climática exige incorporar informações sobre riscos futuros às decisões tomadas no presente. Obras de drenagem, avenidas, loteamentos, escolas e políticas habitacionais produzem efeitos por décadas. Considerar diferentes cenários climáticos nessas escolhas permite identificar vulnerabilidades, estabelecer prioridades e direcionar investimentos com maior capacidade de antecipação. O Brasil já conta com instrumentos para apoiar esse processo. O AdaptaBrasil reúne projeções climáticas e indicadores de risco que permitem identificar ameaças e seus possíveis impactos em diferentes territórios. A ferramenta já foi utilizada, por exemplo, na definição dos municípios prioritários do AdaptaCidades, a partir da combinação de projeções climáticas, dados demográficos, exposição a riscos e vulnerabilidade social. O avanço está em transformar esse conhecimento em capacidade de decisão. Isso envolve aproximar as informações climáticas dos instrumentos que orientam o desenvolvimento urbano e das escolhas sobre infraestrutura, uso e ocupação do solo, disponibilidade hídrica e localização de equipamentos públicos. O próprio diagnóstico apoiado pelo AdaptaBrasil aponta que 3.679 municípios apresentam baixa ou muito baixa capacidade adaptativa, evidenciando que o desafio envolve tanto produzir informação quanto fortalecer as condições para utilizá-la. Esse movimento pode tornar o planejamento urbano mais preparado para diferentes cenários climáticos, permitindo que decisões de longo prazo considerem os riscos que já podem ser identificados hoje.

O El Niño de 2026/2027 torna essa discussão ainda mais concreta. O país dispõe hoje de monitoramento climático, informações sobre riscos, instrumentos de planejamento e iniciativas voltadas ao fortalecimento da capacidade de adaptação dos municípios. O desafio está em conectar esse conhecimento às decisões que definem o futuro das cidades. Planejar para um clima mais instável envolve considerar, de forma integrada, os riscos de enchentes, secas e calor, além de suas consequências sobre a água, a infraestrutura, a mobilidade, a habitação e os serviços públicos. Essa perspectiva amplia a capacidade de antecipar impactos, definir prioridades e fazer escolhas mais eficientes no uso dos recursos públicos. A mudança climática já está produzindo novos desafios para as cidades brasileiras. A oportunidade está em fazer com que o conhecimento disponível hoje ajude a construir respostas antes que esses desafios se convertam em novas perdas. Adaptar as cidades é uma decisão de planejamento: escolher, no presente, caminhos que aumentem sua capacidade de enfrentar os cenários que virão.

Mariana Pontes é presidente da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES)


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