Por João Antonio de Albuquerque e Souza
O avanço das chamadas “canetas emagrecedoras” no mercado de saúde extrapolou o ambiente clínico e já começa a afetar o esporte de maneira preocupante. O fenômeno, impulsionado pela popularização de substâncias como semaglutida e tirzepatida, acende um alerta sobre o uso indiscriminado desses medicamentos por atletas que buscam perder peso rapidamente ou melhorar seu desempenho físico sem necessidade clínica comprovada.
A discussão ganhou novas proporções após a revelação de que Serena Williams, tenista campeã de 23 Grand Slams, aposentada desde 2022, afirmou utilizar o Mounjaro para perda de peso. Além disso, a atleta foi anunciada como garota-propaganda da empresa americana de telemedicina Ro, que a nomeou “embaixadora celebridade” de uma campanha plurianual para normalizar o uso de medicamentos GLP-1 para emagrecimento.
Ao mesmo tempo em que a narrativa comercial busca naturalizar o consumo dessas substâncias, o movimento evidencia como a indústria e figuras de grande influência podem reforçar a ideia, já presente no ambiente esportivo, de que fármacos potentes podem substituir acompanhamento médico adequado e preparação física estruturada, ampliando o risco de uso indevido e pressões silenciosas sobre atletas profissionais. Essas substâncias atuam diretamente no sistema metabólico, alterando apetite, absorção de nutrientes e resposta hormonal.
O uso dessas medicações por pessoas saudáveis, especialmente atletas de alto rendimento, pode acarretar efeitos colaterais sérios, como perda de massa muscular, queda de performance, distúrbios gastrointestinais e desequilíbrios que comprometem toda a preparação física. Embora as substâncias presentes nas canetas emagrecedoras (semaglutida e tirzepatida) não estejam na lista de substâncias proibidas pela WADA, a tendência é de sejam incluídas brevemente.
Até lá, não configuram doping, mas isso não elimina os riscos médicos e nem o debate ético envolvido. A ausência atual dessas substâncias no código antidopagem cria um vácuo interpretativo, em que atletas podem usá-las legalmente, desde que com prescrição, mas isso abre espaço para uso inadequado e fora das diretrizes terapêuticas.
O risco não está apenas no doping futuro, mas no presente, já que a crescente banalização de medicamentos complexos e o impacto disso na saúde de atletas que, pressionados por resultados, podem estar ultrapassando limites invisíveis, aqueles que a ciência ainda leva tempo para mensurar, mas que já começam a cobrar seu preço.

João Antonio de Albuquerque e Souza é atleta olímpico, graduado em Direito e mestre em Direito e Justiça Social
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