ARTIGO | O poderoso sentimento de pertença

Em uma aula recente, ouvi da professora esta assertiva conclusão: “O que o aluno constrói, ele não destrói.” Essa fala traduz um termo caro ao ser humano, em sua relação com o mundo: o sentimento de pertença.

A sensação de pertencimento ativa algo poderoso em nós. Somos capazes de enfrentar as mais áridas adversidades e, mesmo, muitos dissabores em nome daquilo que tem um pouco de nós: a nossa família, a nossa escola, o nosso time, a nossa cidade, o nosso país. Mais que isso, alimenta nosso otimismo. Vá alguém falar da nossa família, por mais problemática que seja! Um 7 x 1 pode até nos abater, mas não nos tira a alegria de pertencer a uma nação: um dia daremos o troco!

Considerando que, em grande medida, a escola representa os primeiros contatos da criança com “o mundo” e que boa parte do que se constrói nesse espaço molda o futuro cidadão, precisamos cultivar nos discentes esse bom sentimento e, sobretudo, levá-los a abrir-se para ele em outros contextos. Para além dos muros da escola, precisamos nos sentir parte de algo, precisamos de paixões, precisamos de causas por que lutar. Caso contrário, o niilismo se instala. E, na provocativa indagação de um famoso rock nacional, “como é que eu vou crescer sem ter com que me rebelar?”.

Ouvi de certo professor, um sociólogo, a expressão “fragilidade institucional”, como referência à incredulidade que toma a população a respeito das autoridades e órgãos governamentais.

Nesse mesmo sentido, vaticinou o ilustre mestre, um dos maiores desafios do nosso país é modificar a relação do brasileiro com o bem público. E explicou: enquanto o cidadão enxergar as ruas, os parques, as praias, os prédios públicos como espaços sem dono ou “do governo”, dificilmente haverá o senso de cuidado e preservação.

A pedagogia de projetos e as metodologias (cri)ativas apresentam-se como interessantes possibilidades. Especialmente, porque suscitam desafios e incentivam a aprendizagem colaborativa. E, ao se verem como parte dos problemas, os jovens hão de perceber que, na vida em sociedade, quase sempre, o “eu” precisa dar lugar ao “nós”; que a força deste, plural, é maior que a daquele, singular.

Esse pequeno passo no microcosmo escolar pode representar grande salto para a construção de uma sociedade mais harmônica.

Ênio César de Moraes É poeta e professor. Assessor Pedagógico no Colégio Presbiteriano Mackenzie de Brasília (CPMB) e professor de Língua Portuguesa


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