Burnout materno: quando o amor vem acompanhado de esgotamento

Recentemente assisti ao filme Tully Tully e fiquei profundamente tocada pela forma como ele retrata a maternidade real — distante da imagem romantizada que tantas vezes vemos nas redes sociais.

Em silêncio, me identifiquei com o olhar cansado da personagem principal. Não apenas pelo sono acumulado, mas pela sensação de viver em estado permanente de exaustão, tentando sustentar tudo ao mesmo tempo.

Porque existe um tipo de cansaço que não melhora apenas com uma boa noite de sono.

Nos últimos anos, o termo “burnout” passou a fazer parte das conversas sobre saúde mental, principalmente relacionado ao trabalho. Mas existe uma forma de esgotamento ainda pouco discutida: o burnout materno.

Burnout é um estado de exaustão física, emocional e mental causado por estresse crônico e sobrecarga prolongada. Muitas vezes, férias não resolvem, porque o problema não está apenas na falta de descanso — está no peso constante de sustentar múltiplos papéis sem apoio suficiente.

Estudos internacionais já descrevem o burnout parental como um fenômeno real, associado a sintomas como exaustão intensa, irritabilidade, sensação de incompetência, distanciamento emocional e perda de prazer na maternidade.

Talvez exista aí uma das maiores armadilhas da maternidade moderna.

O mercado de trabalho exige produtividade constante. As redes sociais exigem presença absoluta, paciência infinita e felicidade permanente.

A mãe deve trabalhar como se não tivesse filhos.
E criar os filhos como se não trabalhasse.
No meio dessa equação impossível, sobra pouco espaço para descanso, silêncio e saúde mental.

Como pediatra, observo diariamente mães emocionalmente drenadas tentando sustentar rotinas incompatíveis com qualquer limite humano. E talvez o mais triste seja que muitas acreditam que isso significa fraqueza.

Não significa.
Burnout materno não é falta de amor.
É excesso de sobrecarga sem suporte adequado.
Existe um antigo provérbio africano que diz: “é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”.
Talvez tenhamos esquecido que também é preciso uma aldeia para sustentar uma mãe.‌

Dra. Eliana Maekawa

Pediatra e Neonatologista

@‌draelianamaekawa

[email protected]


SUGESTÕES DE PAUTA: [email protected]

- Patrocinado -

Últimas

Explosão no Jaguaré expõe crise silenciosa da infraestrutura urbana e levanta questionamentos sobre modelo de gestão da Sabesp

Tragédia envolvendo obra da Sabesp reacende debate sobre terceirização, perda de memória técnica, segurança operacional e impactos da privatização do saneamento paulista A explosão provocada...

Evento São Paulo Innovation Week reúne tecnologia, inovação e empreendedorismo na capital paulista

A cidade de São Paulo recebeu na última semana (entre 13 e 15 de maio), a primeira edição da São Paulo Innovation Week, festival...

Dia Mundial da Hipertensão acende alerta para pressão alta na gravidez e reforça importância do pré-natal de alto risco

Condição está entre as principais causas de complicações maternas e fetais no Brasil e exige vigilância rigorosa O Dia Mundial da Hipertensão, celebrado em 17...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui