Anestesia ainda assusta mais que a cirurgia e o problema está na falta de informação

Por Dr. Jorge Luiz Andrade

Mesmo com todos os avanços da medicina nas últimas décadas, ainda é comum encontrar pacientes que chegam ao centro cirúrgico mais apreensivos com a anestesia do que com o próprio procedimento. Esse receio aparece com frequência nas conversas pré-operatórias e costuma se manifestar na forma de dúvidas recorrentes sobre não acordar, sentir dor ou perder o controle durante a cirurgia. Trata-se de um medo compreensível, mas que não acompanha a evolução da anestesiologia moderna e, por isso, precisa ser revisto à luz de informação qualificada.

A origem desse temor está, em grande parte, em uma herança de histórias antigas e experiências mal contextualizadas, construídas em um período em que os recursos disponíveis eram mais limitados. Hoje, a realidade é completamente diferente. A anestesia é uma especialidade estruturada sobre tecnologia avançada, monitoramento contínuo e protocolos rigorosos de segurança. Antes de qualquer procedimento, o paciente passa por uma avaliação detalhada que considera seu histórico clínico, exames, características da cirurgia e condições individuais. Não há espaço para decisões padronizadas ou automatizadas.

Ainda assim, o anestesiologista costuma ser percebido como um profissional de passagem rápida, o que contribui para o distanciamento e, consequentemente, para o aumento da insegurança. Quando o paciente não compreende exatamente o que será feito e como sua segurança será garantida, é natural que surjam interpretações equivocadas. O receio, nesse contexto, não está necessariamente ligado à anestesia em si, mas à ausência de clareza sobre o processo.

É fundamental reconhecer que todo ato médico envolve algum nível de risco, e com a anestesia não é diferente. A diferença está na maneira como esses riscos são hoje conhecidos, monitorados e reduzidos. Complicações graves diretamente associadas à anestesia são extremamente raras, especialmente quando comparadas a situações do cotidiano que muitas vezes passam despercebidas. O procedimento anestésico segue um planejamento criterioso e é acompanhado em tempo real, com foco permanente na estabilidade do paciente.

A sensação de perda de controle também é um fator relevante nesse cenário. Estar sedado ou inconsciente durante uma cirurgia exige confiança, e essa relação precisa ser construída com base em diálogo. A consulta pré-anestésica tem justamente esse papel de esclarecer, ouvir e orientar. Quando o paciente entende que há um especialista dedicado exclusivamente ao cuidado de suas funções vitais, ao controle da dor e à condução segura do procedimento, a percepção muda significativamente.

A transformação dessa visão depende de um esforço conjunto. Profissionais precisam se comunicar de forma mais acessível e transparente, enquanto pacientes devem buscar informações confiáveis e atualizadas. O medo associado à cirurgia costuma estar relacionado ao resultado e à recuperação. Já o medo da anestesia, na maioria das vezes, nasce da desinformação. E esse é um tipo de receio que pode ser enfrentado com conhecimento.

Quando compreendida dentro do contexto atual da medicina, a anestesia deixa de ser vista como um risco isolado e passa a ser reconhecida como parte essencial da segurança do procedimento. Ela não representa um ponto de vulnerabilidade, mas um dos momentos mais controlados de toda a jornada cirúrgica. Enquanto persistir a ideia de que a anestesia é mais perigosa do que a cirurgia, ficará evidente que ainda há um espaço importante a ser ocupado pela informação clara e pelo diálogo qualificado.

Dr. Jorge Luiz Andrade é anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu


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