Precarização da Pediatria: um risco silencioso para nossas crianças

Por Marcelo Pavese Porto

Uma sociedade saudável se constrói a partir do cuidado com a infância. Educação, vacinação, aleitamento materno, lazer e, sobretudo, saúde são pilares essenciais para garantir dignidade, desenvolvimento e futuro. No entanto, vivemos um cenário preocupante, marcado por falhas estruturais graves no cuidado com nossas crianças.

A saúde infantil enfrenta um processo alarmante de precarização. Redução de leitos, fechamento de unidades de terapia intensiva, emergências e serviços pediátricos de referência tornaram-se cada vez mais frequentes. O argumento é recorrente: “a pediatria não dá lucro”. Essa justificativa é inaceitável. Submeter a vida de crianças à lógica estrita do balanço financeiro revela má gestão e profunda irresponsabilidade social.

Após anos de desinformação, os índices de vacinação começam lentamente a se recuperar, ainda longe do ideal. O reflexo é preocupante: o ressurgimento de doenças antes controladas, como o sarampo, e o risco real do retorno da poliomielite. Paralelamente, todos os anos, especialmente no inverno, repetem-se cenas de emergências pediátricas superlotadas, crianças aguardando atendimento e falta de leitos.

Além disso, avança a terceirização indiscriminada e a chamada “pejotização” da Pediatria. Equipes de pediatras qualificados vêm sendo substituídas por médicos subcontratados, muitas vezes sem formação específica, escalados para atuar em emergências, UTIs pediátricas e neonatais e salas de parto. Essa prática compromete a segurança das crianças, precariza as condições de trabalho e fragiliza a formação dos médicos residentes. As famílias, em geral, acreditam que seus filhos estão sendo atendidos por pediatras, o que nem sempre corresponde à realidade. Profissionais sem formação adequada podem não reconhecer sinais precoces de gravidade, atrasando diagnósticos e colocando vidas em risco.

É preciso reafirmar o óbvio: a criança não é um adulto em miniatura. Suas doenças, tratamentos e dosagens exigem conhecimento técnico específico. Atender crianças com segurança requer formação especializada. Esse profissional é o pediatra. Até quando aceitaremos passivamente essa precarização? A saúde é o bem mais precioso que existe, e nada é mais valioso do que a vida de um bebê ou de uma criança. É urgente interromper a mediocrização do atendimento pediátrico. A hora de agir é agora.

Marcelo Pavese Porto é Presidente da Sociedade de Pediatria do RS


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