O teatro e a sua escuta como ato de resistência

Por Matheus Ranieri

“Uma das coisas que mais me preocupa é que as pessoas não se olham mais nos olhos”, disse o físico, escritor e astrônomo Marcelo Gleiser em entrevista, no final de 2025, ao The Summer Hunter. “Quando você interage através de uma tela, está vendo apenas uma projeção plana de uma outra pessoa”, complementou.

A observação traduz um dos grandes desafios do nosso tempo. Vivemos uma época em que falar parece mais importante do que ouvir. As redes sociais ampliaram vozes e democratizaram espaços de expressão, mas também consolidaram uma dinâmica em que a resposta precisa ser imediata, a opinião definitiva e o contraditório frequentemente é tratado como ameaça. Em meio à polarização política e à comunicação acelerada, a escuta tornou-se um exercício cada vez mais raro.

É justamente nesse contexto que o teatro reafirma sua importância.

Acredito que o teatro é um dos últimos territórios onde a escuta ocupa o centro da experiência humana. E não me refiro apenas ao silêncio da plateia diante do palco, mas à capacidade de estar verdadeiramente disponível para o outro, de acompanhar uma história sem a ansiedade de interrompê-la e de permitir que diferentes perspectivas coexistam sem que uma precise anular a outra.

O teatro nasce do encontro. Cada espetáculo depende da escuta entre atores, da relação viva com o público e da disposição para aceitar que nenhuma apresentação será igual à anterior. Essa experiência compartilhada nos lembra algo que a velocidade do mundo digital insiste em apagar: pessoas não são algoritmos, nem podem ser reduzidas a frases de efeito ou publicações de poucos caracteres.

No palco, aprendemos que um personagem nunca é apenas herói ou vilão. Ele reúne contradições, medos, dúvidas e desejos. Essa complexidade nos aproxima da vida real, onde ninguém cabe nos rótulos das disputas ideológicas. O teatro ensina que compreender não significa concordar, mas reconhecer a humanidade de quem pensa diferente.

Enquanto o ambiente público parece premiar quem fala mais alto, o teatro valoriza quem consegue ouvir melhor. Em tempos de tanto ruído, sua maior contribuição talvez não seja ensinar a falar, mas nos fazer reaprender a escutar. Afinal, a convivência democrática começa quando reconhecemos que o outro merece ser ouvido.

Matheus Ranieri é ator, diretor teatral e dramaturgo, preparador de elenco e fundador da Oficina Estilhaça


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