Ações imediatas podem amenizar os problemas causados pelo acúmulo de calor, que já afeta a agricultura, o clima e a geração de energia no País
A última década, já considerada a mais quente registrada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), revela mais que o aumento das temperaturas globais. Evidencia um constante e crescente desequilíbrio energético do planeta, fenômeno que ocorre quando há uma diferença entre a quantidade de energia solar que a Terra recebe e a que consegue devolver ao espaço, fazendo com que o sistema climático passe a acumular calor. É o que explica o professor Tomas Domingues, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, ao detalhar o funcionamento do desequilíbrio energético e os fatores que contribuem para o aumento desse processo.
“O desequilíbrio energético significa que parte da energia que chega do Sol à Terra não retorna ao espaço, causando acúmulo de calor e tornando o planeta mais quente. Esse desequilíbrio está ligado ao aumento do efeito estufa provocado pelas atividades humanas, como a queima de combustíveis e a conversão de áreas florestadas em pastagens e agricultura.”
Dados da OMM deste ano indicam que o planeta atingiu cerca de 1,43 °C acima dos níveis pré-industriais, aproximando-se do limite de 1,5 °C estabelecido pelo Acordo de Paris. No Brasil, esse desequilíbrio já se reflete em mudanças perceptíveis no clima. Segundo Domingues, o aumento de energia acumulada no sistema climático tem provocado elevação gradual das temperaturas médias e alterações nos padrões climáticos observados historicamente, impactos que podem perdurar por várias décadas e até centenas de anos. Entre eles estão o aumento contínuo das temperaturas em praticamente todas as regiões do País e mudanças no comportamento das chuvas e dos eventos extremos. “No Brasil, esse desequilíbrio não foge do que acontece no resto do mundo e causa um aumento das temperaturas médias, tanto de dia quanto de noite. Com mais energia no sistema climático esses padrões passam a fugir da média histórica e eventos extremos, como ondas de calor, secas e enchentes e passam a ocorrer com mais frequência.”
Esse cenário não preocupa somente em relação ao clima, mas também sobre a geração de energia e a segurança hídrica no Brasil. Dependente majoritariamente de usinas hidrelétricas, o País pode enfrentar maior instabilidade no abastecimento energético à medida que mudanças no regime de chuvas e períodos prolongados de seca afetam o volume de água nos reservatórios. Grande parte da eletricidade brasileira é produzida a partir de água armazenada em lagos artificiais, que permitem regular a vazão dos rios e garantir a geração de energia ao longo do tempo.
Por Luis Martins para o Jornal da USP
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