Por André Naves
Quem costuma acompanhar as notícias acabou se emocionando… Um homem, com a medula totalmente rompida após uma queda, relatou a emoção indescritível de conseguir voltar a mover o próprio pé.
Isso não é magia! É tecnologia, inovação e ciência! Quem tem contato com o noticiário já sabe que se trata da polilaminina, uma rede de proteínas desenvolvida ao longo de quase trinta anos de pesquisa pela bióloga Tatiana Sampaio, nos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lá, na recente lesão medula, a ciência brasileira construiu um caminho. Na aparente paralisia, a universidade pública forjou o movimento.
É muito bom alertar que, apesar do enorme tempo e seriedade, e ainda que a pesquisa seja promissora, os estudos ainda carecem de um longo caminho até serem efetivamente liberados para comercialização pela ANVISA… Não se produz ciência na pressa, no afogadilho, no sopetão…
No entanto, a beleza desse potencial humano de criar e dar existência a algo novo é atravancada pela ineficiência das prioridades nacionais. A mesma universidade que entregou a Esperança de cura a pacientes paraplégicos sofreu um golpe que revela a falha de nossas políticas públicas. Segundo a própria Dra. Tatiana, temos a patente nacional dessa aparente descoberta, mas perdemos a patente internacional. O motivo? A UFRJ deixou de pagar as taxas de manutenção por falta de verbas.
Perder a soberania sobre uma inovação dessa magnitude é a evidência da ausência de um Plano de Desenvolvimento Nacional brasileiro. A sociedade brasileira, em sua grande maioria, se recusa a enxergar a educação, a ciência e a universidade pública e gratuita como seus maiores pilares estratégicos. Esse descaso é refletido, pelo mundo político, em uma completa ausência de políticas públicas incentivadoras da Educação e Ciência.
Tratar o financiamento científico como “gasto” passível de cortes contingenciais é o atestado de nossa submissão ao subdesenvolvimento. É a vitória do imediatismo tacanho sobre a construção estrutural.
O Estado tem um papel insubstituível como financiador do risco inicial, da pesquisa de base e da formação de talentos. É através da universidade pública, plural, gratuita e de excelência que garantimos que o talento encontre o caminho para florescer.
Cabe agora a nós, enquanto sociedade, e especialmente aos nossos formuladores de políticas públicas, reconectar a medula do próprio Estado brasileiro. Precisamos de investimentos perenes, massivos e estratégicos em educação e ciência.

André Naves é Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social – FDUSP
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