Por Lorena Zapata
Durante décadas, o Brasil construiu sua política de segurança hídrica sob uma lógica relativamente simples. Sempre que a demanda crescia ou uma seca se agravava, a resposta era buscar novas fontes de abastecimento, ampliar sistemas de captação ou investir em grandes obras. Esse raciocínio fazia sentido quando o principal desafio era expandir a infraestrutura. Hoje, porém, ele se tornou insuficiente.
A sucessão de eventos climáticos extremos, as dificuldades enfrentadas por grandes centros urbanos para garantir abastecimento regular e a pressão crescente sobre os serviços de saneamento mostram que o problema deixou de ser apenas produzir mais água. O ponto crítico passou a ser administrar melhor aquela que já existe. A próxima crise hídrica brasileira não tende a surgir porque o país ficou sem água, mas porque continua desperdiçando um volume incompatível com a dimensão do patrimônio hídrico que possui.
Segundo o Diagnóstico Temático sobre Perdas de Água do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), divulgado pelo Ministério das Cidades com dados de 2023, o índice médio de perdas na distribuição alcança 37,8%. Não se trata apenas de vazamentos. Cada litro perdido representa energia utilizada na captação, produtos químicos empregados no tratamento, horas de operação, manutenção da infraestrutura e recursos públicos que deixam de cumprir sua finalidade. Nenhum setor econômico aceitaria perder quase 40% de sua produção sem rever seus processos.
Ainda persiste a ideia de que monitoramento remoto, telemetria e sistemas inteligentes representam uma etapa futura da infraestrutura hídrica. Na prática, esses recursos já deveriam ser considerados parte da operação básica. Redes de abastecimento são sistemas dinâmicos, sujeitos a alterações constantes de pressão, consumo e integridade física. Administrá-las com inspeções esporádicas ou respostas apenas após o surgimento de falhas significa aceitar que o desperdício continuará sendo identificado tarde demais.
O debate sobre segurança hídrica precisa, portanto, abandonar uma visão centrada exclusivamente na expansão da oferta. O Brasil continuará necessitando de novas obras em determinadas regiões, mas elas terão efeito limitado enquanto quase 40% da água tratada continuar desaparecendo antes de cumprir sua função. A agenda prioritária passa por reduzir perdas, incorporar inteligência operacional e transformar dados em instrumento permanente de gestão. Se essa lógica não mudar, o país continuará convivendo com crises que não decorrem da falta de água, mas da incapacidade de gerir adequadamente um recurso que insiste em desperdiçar.

Lorena Zapata é especialista em sustentabilidade industrial, diretora de novos negócios e sustentabilidade na Engeper Ambiental e Perfurações
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