Por Dra. Eliana Maekawa
Há alguns dias participei de uma entrevista para o programa Mãe a Mãe. Entre os temas abordados, conversamos sobre uma palavra que ainda é pouco conhecida, mas que explica muito do que tantas mulheres sentem após a chegada dos filhos: matrescência. O termo foi criado pela antropóloga Dana Raphael na década de 1970 e descreve a profunda transformação física, emocional, psicológica e social que acontece quando uma mulher se torna mãe. Assim como a adolescência marca a passagem da infância para a vida adulta, a matrescência marca a transição para a maternidade.
E, como toda grande transformação, ela pode ser intensa, confusa e, muitas vezes, solitária.
Vivemos em uma sociedade que prepara a mulher para o parto, mas raramente a prepara para aquilo que acontece depois dele. Falamos sobre enxoval, decoração do quarto e lista de maternidade, mas pouco conversamos sobre a reconstrução da identidade. Sobre a mulher que continua existindo além da mãe.
Durante a entrevista, falamos também sobre o chamado “mommy brain”, expressão popular que descreve as mudanças cognitivas observadas na maternidade. Hoje sabemos, por meio de estudos de neuroimagem, que o cérebro materno passa por adaptações reais durante a gestação e nos primeiros anos após o nascimento dos filhos. Longe de representar uma perda de capacidade, essas mudanças parecem favorecer empatia, vínculo, proteção e sensibilidade às necessidades da criança.
Talvez por isso tantas mães relatem a sensação de estarem diferentes. E estão mesmo.
A mulher que retorna ao trabalho não é exatamente a mesma que saiu de licença. A médica, a professora, a advogada, a empresária ou a dona de casa voltam carregando novas prioridades, novas preocupações e, muitas vezes, uma nova visão de mundo.
Ao mesmo tempo, existe uma cobrança silenciosa para que tudo continue igual. Que a produtividade permaneça intacta. Que a casa funcione perfeitamente. Que a carreira avance sem pausas. Que o corpo retorne rapidamente ao que era antes. Que a mãe sorria o tempo todo.
Mas a maternidade não é uma experiência de perfeição. É uma experiência de transformação.
Como pediatra, acompanho diariamente o desenvolvimento dos bebês. Como mãe, aprendi que, enquanto um filho nasce, uma nova mulher também está nascendo. E ela merece o mesmo cuidado, acolhimento e acompanhamento que oferecemos à criança.
Talvez o primeiro passo seja reconhecer que essa fase existe. O segundo é entender que ninguém deveria atravessá-la sozinha.
Existe um provérbio africano que diz: “É preciso uma aldeia para criar uma criança”. Eu acrescentaria que também é preciso uma aldeia para sustentar uma mãe enquanto ela se transforma.
Porque cuidar da infância começa, inevitavelmente, por cuidar de quem cuida.

Dra. Eliana Maekawa
Pediatra e Neonatologista
Mãe do Matheus e da Ana Luiza
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